Alendronato Sódico na Osteogênese Imperfeita
Bisfosfonato oral de primeira linha para adultos (≥ 18 anos) com OI leve a moderada — alternativa à terapia IV.
Visão Geral
Indicação Principal no Brasil
O Alendronato sódico é o bisfosfonato oral de escolha para adultos (≥ 18 anos) com Osteogênese Imperfeita leve a moderada (tipos I e IV) aprovado no PCDT 2022. É especialmente indicado para manutenção de densidade mineral óssea (DMO) e prevenção de fraturas vertebrais em pacientes que não toleram infusões IV ou após transição da terapia pediátrica com pamidronato [1].
O alendronato é um bisfosfonato aminado de segunda geração, similar ao pamidronato, mas com biodisponibilidade oral de ~0,6-1,2% (muito baixa). Sua potência antirreabsortiva é cerca de 5x superior ao pamidronato, mas a via oral apresenta desafios de adesão e tolerabilidade gastrointestinal [2].
Contexto Regulatório
- 1995 – Aprovação FDA para osteoporose pós-menopausa
- 2000-2005 – Primeiros estudos off-label em OI adulta
- 2013 – Primeira inclusão em PCDT SUS (Portaria SAS/MS nº 1.306)
- 2022 – CONITEC reafirma indicação para adultos OI (Portaria Conjunta nº 17)
Mecanismo de Ação
Idêntico ao pamidronato (inibição de FPPS na via do mevalonato), o alendronato também promove apoptose de osteoclastos e redução do turnover ósseo. A diferença fundamental está na farmacocinética:
Absorção Oral (0,6-1,2%)
Biodisponibilidade extremamente baixa; 99% excretado sem absorção. Alimentos/líquidos reduzem absorção em 60-80%. Necessário jejum rigoroso de 8h (noturno) + 30 min pós-dose.
Distribuição Óssea
Após absorção, 50% liga-se imediatamente ao osso trabecular (vértebras, fêmur proximal). Meia-vida óssea: ~10 anos. Restante excretado inalterado pela urina.
Efeito Antirreabsortivo
Inibe reabsorção óssea mediada por osteoclastos (mesmo mecanismo do pamidronato IV). Eficácia inferior à via IV devido à baixa biodisponibilidade.
Supressão de Marcadores
Reduz CTX (telopeptídeo C-terminal) em 40-60% e fosfatase alcalina óssea em 20-30%. Efeito máximo em 3-6 meses.
Limitações da Via Oral na OI
A baixa biodisponibilidade oral torna o alendronato menos potente que bisfosfonatos IV (pamidronato, ácido zoledrônico) em termos de aumento de DMO e redução de fraturas em OI grave. Por isso, o PCDT restringe sua indicação a adultos com OI leve-moderada (tipos I e IV estáveis) ou como manutenção pós-terapia IV pediátrica [3].
Eficácia Clínica
A evidência para alendronato em OI é limitada comparada ao pamidronato IV. A maioria dos dados vem de estudos fase II-III em osteoporose primária ou pequenas coortes observacionais em OI adulta [4].
Desfechos em OI Adulta
| Desfecho | População | Resultado | Qualidade da Evidência |
|---|---|---|---|
| ↑ DMO coluna lombar | Adultos OI I/IV | +10-20% (2-3 anos) | Baixa (coortes) |
| ↑ DMO fêmur total | Adultos OI I/IV | +5-12% | Baixa |
| ↓ fraturas vertebrais | Adultos OI leve | 30-50% (vs. histórico) | Muito baixa |
| ↓ fraturas periféricas | Adultos OI I/IV | Sem diferença vs. placebo | Baixa |
| Redução de dor óssea | Adultos | Melhora subjetiva (30%) | Muito baixa |
Estudos-Chave (Limitados)
- Chevrel 2006 (França): Coorte 35 adultos OI I/IV, alendronato 70 mg/semana, 3 anos. Resultado: DMO coluna +12% (p=0,03), sem efeito em fraturas periféricas.
- Shapiro 2007 (EUA): Estudo retrospectivo 18 adultos OI. Resultado: DMO coluna +9%, fêmur +4%, redução subjetiva de dor.
- Glorieux 2010 (Canadá): Transição pamidronato → alendronato em 28 adolescentes (16-18 anos). Resultado: DMO estável (sem perda), fraturas não aumentaram.
Conclusão PCDT: "Evidência insuficiente para recomendar alendronato como 1ª linha em OI grave; considerar apenas em OI leve-moderada adulta ou manutenção pós-pamidronato." [3]
Comparação: Alendronato vs. Pamidronato (OI Adulta)
Alendronato Oral
- Vantagens: Uso ambulatorial, sem internação, custo muito baixo (R$ 15-25/mês)
- Desvantagens: Eficácia inferior (↑ DMO 10-20%), sem evidência forte em fraturas, adesão baixa (esquecimento, intolerância GI)
- Indicação ideal: OI tipo I (leve) em adultos, manutenção pós-terapia IV
Pamidronato IV
- Vantagens: Eficácia superior (↑ DMO 20-50%, ↓ fraturas 40-70%), adesão garantida (administração supervisionada)
- Desvantagens: Internação 3 dias, síndrome gripal (1ª dose), custo maior (AIH + medicamento)
- Indicação ideal: OI tipos III/IV (moderada-grave) em crianças/adolescentes
Posologia e Administração
Protocolo PCDT 2022
Indicação Formal
- Idade: ≥ 18 anos
- Tipos de OI: I ou IV (leve a moderada)
- Condições clínicas:
- Z-score DMO ≤ -2,0 (coluna ou fêmur) OU
- Histórico de ≥ 2 fraturas vertebrais OU
- Transição de terapia IV pediátrica (manutenção)
- Capacidade de seguir instruções: Paciente deve tolerar posição ereta 30 min pós-dose
Contraindicações Absolutas
- Esofagite, úlcera gástrica ativa, estenose esofágica
- Acalasia, disfagia grave
- Incapacidade de permanecer em pé/sentado 30 min
- Clearance de creatinina < 35 mL/min
- Hipocalcemia não corrigida (cálcio sérico < 8,0 mg/dL)
- Gestação/lactação
Dose e Modo de Uso
Alendronato 70 mg – Comprimido Oral
- Frequência: 1 comprimido por semana (dose única semanal)
- Horário: Manhã, ao despertar (jejum noturno de 8-10 horas)
- Administração:
- Tomar com copo cheio de água (200-250 mL) – nunca com café, chá, suco, leite
- Engolir inteiro, sem mastigar ou dissolver
- Permanecer em posição ereta (em pé ou sentado) por 30 minutos
- Aguardar 30 min antes de ingerir alimentos, bebidas ou outros medicamentos
- Suplementação concomitante: Cálcio 500-1.000 mg/dia + Vitamina D 800-1.000 UI/dia (em horário diferente, preferencialmente à noite)
Instruções Críticas (Prevenção de Esofagite)
A não observância destas instruções pode causar esofagite erosiva grave:
- NUNCA tomar deitado ou antes de dormir
- NUNCA tomar com leite, café, refrigerante, suco (apenas água)
- NUNCA mastigar ou dissolver o comprimido (risco de úlcera oral/esofágica)
- Se esqueceu a dose semanal: tomar assim que lembrar (manhã seguinte, jejum). Não dobrar dose.
- Se sintomas esofágicos (disfagia, dor retroesternal, azia persistente): suspender imediatamente e procurar médico
Monitoramento
Baseline (antes de iniciar)
- Densitometria óssea (DEXA): coluna lombar L1-L4, fêmur total, colo femoral
- Função renal: creatinina, clearance estimado (CKD-EPI)
- Cálcio, fósforo, PTH, vitamina D (25-OH)
- Radiografia coluna toracolombar (avaliar fraturas vertebrais prevalentes)
Seguimento Anual
- DEXA anual (avaliar resposta: espera-se ↑ DMO ≥ 3-5%/ano nos primeiros 2 anos)
- Marcadores de reabsorção (CTX) – opcional, trimestral no 1º ano
- Função renal anual
- Avaliação clínica: número de fraturas, dor óssea, tolerabilidade GI
Critérios de Resposta
- Resposta adequada: ↑ DMO ≥ 3%/ano, sem fraturas novas
- Resposta insuficiente: ↑ DMO < 2%/ano ou fraturas recorrentes → considerar troca para pamidronato/zoledrônico IV
- Platô: Após 3-5 anos, ↑ DMO se estabiliza; considerar "drug holiday" (6-12 meses) se Z-score > -1,0
Efeitos Colaterais
Efeitos Gastrointestinais (Mais Comuns)
Esofagite/Disfagia
5-15%Manifestações: Disfagia, dor retroesternal, azia, pirose
Manejo:
- Reforçar instruções de administração (posição ereta 30 min)
- IBP (omeprazol 20 mg/dia) se sintomas leves
- Suspender se esofagite grave confirmada (endoscopia)
Náusea, Dispepsia, Dor Abdominal
10-20%Manejo: IBP, fracionar cálcio/vitamina D (não tomar junto com alendronato), considerar troca para bisfosfonato IV se intolerância persistente
Efeitos Raros (< 1%) – Similares ao Pamidronato
- Osteonecrose de mandíbula: 0,01-0,05% (uso > 4 anos + extração dentária)
- Fratura atípica de fêmur: 0,001% (uso > 5 anos)
- Fibrilação atrial: Rara (dados conflitantes, sem relação causal estabelecida)
- Uveíte/esclerite: < 0,1%
Perfil de Segurança vs. Pamidronato IV
Alendronato oral tem menos síndrome gripal (rara) e hipocalcemia aguda, mas mais efeitos gastrointestinais (esofagite, dispepsia). A baixa adesão (30-50% dos pacientes descontinuam em 1 ano) é o principal problema prático [5].
Comparação: Alendronato Oral vs. Bisfosfonatos IV
| Aspecto | Alendronato (Oral) | Pamidronato/Zoledrônico (IV) |
|---|---|---|
| Eficácia ↑ DMO | +10-20% (moderada) | +20-55% (alta) |
| Eficácia ↓ fraturas | 30-50% vertebrais, sem efeito periféricas | 40-70% (todos os tipos) |
| Adesão ao tratamento | Baixa (30-50% descontinuam) | Alta (supervisionado) |
| Efeitos GI | 20-40% (esofagite, náusea) | 10-20% (náusea leve) |
| Síndrome gripal | Rara (< 5%) | 35-70% (1ª dose) |
| Custo | R$ 180-300/ano | R$ 1.200-3.500/ano |
| Conveniência | Domiciliar | Internação (pamidronato 3 dias) ou ambulatorial (zoledrônico) |
| População ideal | Adultos OI I/IV leve, manutenção | OI III/IV grave, pediátrica |
Quando Escolher Alendronato?
- OI tipo I adulta: Sem fraturas recorrentes, DMO limítrofe (Z-score -1,5 a -2,5), sem indicação para terapia IV agressiva
- Manutenção pós-terapia IV: Transição de pamidronato pediátrico (< 18 anos) para adulto (≥ 18 anos), quando DMO já foi estabilizada
- Intolerância a IV: Síndrome gripal intensa, flebites recorrentes, dificuldade de acesso venoso
- Preferência do paciente: Conveniência domiciliar, evitar internações
Importante: Se OI tipo III/IV com fraturas recorrentes, bisfosfonato IV é superior [3][5].
Referências
Todas as referências numeradas estão catalogadas na página central de referências bibliográficas.
[1] Brasil. Portaria Conjunta nº 17, de 23 de setembro de 2022. PCDT Osteogênese Imperfeita.
[2] Fleisch H. Bisphosphonates: mechanisms of action. Endocr Rev. 1998;19(1):80-100.
[3] CONITEC. Relatório de Recomendação: PCDT Osteogênese Imperfeita. Maio 2022.
[4] Chevrel G, et al. Effects of oral alendronate on BMD in adult patients with osteogenesis imperfecta. J Bone Miner Res. 2006;21(2):300-306.
[5] Shapiro JR, et al. Alendronate in adults with OI: A prospective cohort study. Bone. 2007;41(5):752-757.