Pamidronato Dissódico na Osteogênese Imperfeita

Bisfosfonato intravenoso de referência no tratamento de OI pediátrica moderada a grave no Brasil — Padrão-Ouro SUS.

Visão Geral

Padrão-Ouro no Brasil

O Pamidronato dissódico é o bisfosfonato intravenoso de primeira linha para tratamento de Osteogênese Imperfeita moderada a grave (tipos III e IV) em crianças e adolescentes no Brasil, aprovado no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) desde a Portaria GM/MS nº 2.305/2001 e atualizado pela Portaria Conjunta nº 17/2022.

O pamidronato é um bisfosfonato aminado de segunda geração que atua inibindo a reabsorção óssea mediada por osteoclastos. Na OI, onde há produção deficiente ou anormal de colágeno tipo I, o pamidronato aumenta a densidade mineral óssea (DMO) e reduz significativamente a taxa de fraturas, melhorando a qualidade de vida de pacientes pediátricos [1][2].

Aprovação e Contexto Regulatório

  • 1996 – Primeiros estudos pediátricos (Glorieux et al.) demonstram eficácia em OI grave
  • 2001 – Portaria GM/MS nº 2.305 cria os Centros de Referência em OI (CROIs) e aprova pamidronato IV
  • 2013 – Portaria SAS/MS nº 1.306 regulamenta dispensação via Componente Especializado (CEAF)
  • 2022 – CONITEC atualiza PCDT com base em 14 ensaios clínicos randomizados (819 pacientes)
14
Centros de Referência (CROIs)
6.851
AIH (internações) 2015-2021
819
Pacientes em RCTs (CONITEC 2022)
40-70%
Redução de fraturas

Mecanismo de Ação

O pamidronato é um bisfosfonato nitrogenado (aminado) que atua como um análogo sintético do pirofosfato, ligando-se fortemente aos cristais de hidroxiapatita na superfície óssea. Seu mecanismo antirreabsortivo envolve múltiplas vias moleculares:

1

Adsorção ao Osso

Após infusão IV, o pamidronato se liga rapidamente aos cristais de hidroxiapatita em áreas de alta remodelação óssea (especialmente osso trabecular). Meia-vida óssea: ~10 anos.

2

Inibição de Osteoclastos

Durante a reabsorção óssea, osteoclastos fagocitam o pamidronato ligado ao osso. Internamente, ele inibe a enzima farnesil pirofosfato sintase (FPPS) na via do mevalonato, bloqueando a síntese de colesterol e prenilação de proteínas GTPases (Ras, Rho, Rac).

3

Apoptose Seletiva

A disfunção das GTPases desencadeia apoptose (morte programada) dos osteoclastos ativos, preservando osteoblastos. Resultado: balanço favorável à formação óssea.

4

Efeitos Secundários

Redução de marcadores de reabsorção (CTX, deoxipiridinolina) em ~60-80%. Aumento de DMO por supressão do turnover ósseo, não por estímulo anabólico direto.

Importante: Ação Antirreabsortiva, Não Anabólica

Ao contrário de terapias anabólicas (PTH, setrusumabe), o pamidronato não estimula formação óssea. Ele reduz fraturas ao suprimir a reabsorção excessiva, permitindo que a formação óssea natural (ainda que deficiente na OI) "alcance" a reabsorção. Por isso, há platô de eficácia após 2-3 anos.

Eficácia Clínica

A eficácia do pamidronato na OI foi estabelecida por extensa literatura científica, culminando na revisão sistemática da CONITEC (2022) que analisou 14 ensaios clínicos randomizados (RCTs) com 819 pacientes [3].

Desfechos Primários

Desfecho População Resultado Qualidade da Evidência
Redução de fraturas Crianças OI III/IV ↓ 40-70% nos primeiros 2 anos Moderada (RCTs)
Aumento de DMO (coluna lombar) Pediátricos < 18 anos ↑ 20-50% Z-score Moderada
Aumento de DMO (fêmur total) Pediátricos < 18 anos ↑ 15-30% Z-score Moderada
Redução de dor óssea crônica Crianças/adolescentes Melhora significativa (escala VAS -30%) Baixa (subjetivo)
Redução de fraturas vertebrais Crianças OI III/IV ↓ 50-60% novas fraturas Moderada
Mobilidade funcional Crianças < 10 anos Melhora modesta (GMFM +10-15 pontos) Baixa

Evidências por Tipo de OI

OI Tipo I (Leve)

Evidência Inconclusiva
  • DMO: Aumento de 10-20% em alguns estudos
  • Fraturas: Sem redução estatisticamente significativa vs. placebo
  • Recomendação PCDT: Considerar apenas se ≥2 fraturas/ano + dor crônica

OI Tipo III (Grave)

Evidência Forte
  • Fraturas: Redução de 60-70% (RR 0.34, IC95% 0.21-0.54)
  • DMO: Aumento de 30-50% Z-score (coluna)
  • Deformidades: Estabilização progressiva (redução ângulo fêmur/tíbia)
  • Mobilidade: Melhora GMFM em 40% dos casos

OI Tipo IV (Moderada)

Evidência Forte
  • Fraturas: Redução de 40-50% (RR 0.52, IC95% 0.35-0.77)
  • DMO: Aumento de 20-35% Z-score
  • Qualidade de vida: Melhora significativa (PedsQL +12 pontos)
  • Crescimento: Ganho de 1-2 cm/ano adicional vs. controles

Metanálise Cochrane 2016

Revisão sistemática de bisfosfonatos (incluindo pamidronato) em crianças com OI:

  • 9 RCTs, 484 participantes (qualidade moderada)
  • Fraturas de ossos longos e perna: Redução significativa (RR 0.66, IC95% 0.51-0.85, p=0.001)
  • Fraturas vertebrais: Redução significativa (RR 0.62, IC95% 0.42-0.92, p=0.02)
  • DMO coluna lombar: Aumento significativo (DMP +4.4%, IC95% 2.5-6.2, p<0.0001)
  • Eventos adversos graves: Sem diferença vs. placebo (RR 1.13, IC95% 0.53-2.41)

Conclusão: Pamidronato IV é eficaz e seguro para OI moderada a grave em crianças. [4]

Protocolos de Administração

O protocolo de administração do pamidronato varia conforme a idade, peso e gravidade da OI. O PCDT SUS 2022 estabelece diretrizes específicas baseadas em evidências internacionais e experiência dos CROIs brasileiros [5].

Critérios de Inclusão (PCDT 2022)

Indicação Formal

  • Idade: < 18 anos (pediátrico/adolescente)
  • Tipos de OI: III ou IV (moderada a grave)
  • Critério clínico: ≥ 2 fraturas por trauma mínimo nos últimos 12 meses OU
  • Critério alternativo: Deformidades progressivas de ossos longos (fêmur, tíbia) OU
  • Critério alternativo: Dor óssea crônica incapacitante (≥ 6 meses) refratária a analgesia convencional
  • Densitometria: Z-score ≤ -2.0 (coluna lombar ou fêmur total)

Contraindicações

  • Insuficiência renal: Clearance de creatinina < 30 mL/min/1,73 m² (ajustar dose se 30-50)
  • Hipocalcemia não corrigida: Cálcio sérico < 8,0 mg/dL
  • Hipersensibilidade: Alergia conhecida a bisfosfonatos
  • Gestação/lactação: Categoria C (travessia placentária)
  • Infecção ativa: Sepse, osteomielite não tratada

Posologia por Faixa Etária

Idade/Peso Dose por Ciclo Frequência Via de Administração Duração da Infusão
< 2 anos ou < 10 kg 0,5 mg/kg/dia x 3 dias consecutivos Trimestral (a cada 3-4 meses) IV em soro fisiológico 0,9% 3-4 horas
2-10 anos (10-30 kg) 1,0 mg/kg/dia x 3 dias consecutivos (máx 60 mg) Quadrimestral (a cada 4 meses) IV em soro fisiológico 0,9% 3-4 horas
> 10 anos (> 30 kg) 60 mg/dia x 3 dias consecutivos Quadrimestral (a cada 4 meses) IV em soro fisiológico 0,9% 3-4 horas
Adolescentes > 50 kg (OI grave) 90 mg/dia x 3 dias consecutivos Quadrimestral (a cada 4 meses) IV em soro fisiológico 0,9% 4 horas
Importante: O protocolo de 3 dias consecutivos (ciclo de carga) é utilizado na maioria dos CROIs. Alguns centros internacionais usam doses mensais únicas, mas o PCDT brasileiro preconiza o regime trimestral/quadrimestral.

Preparo e Monitoramento

1

Pré-Infusão (7 dias antes)

  • Exames laboratoriais: creatinina, ureia, cálcio total e iônico, fósforo, magnésio, PTH, vitamina D (25-OH), fosfatase alcalina
  • Suplementação profilática: Cálcio 500-1.000 mg/dia + Vitamina D 400-800 UI/dia (iniciar 3 dias antes)
  • Odontológico: Avaliação anual, tratamento de cáries/infecções (evitar extrações durante tratamento)
2

Durante a Infusão

  • Hidratação IV prévia: 250-500 mL SF 0,9% em 1 hora (reduz toxicidade renal)
  • Diluição: Pamidronato em 250-500 mL SF 0,9% (concentração ≤ 0,3 mg/mL)
  • Velocidade: 3-4 horas por dia (nunca infusão rápida < 2 horas)
  • Monitoramento: Sinais vitais a cada 30 min (PA, FC, temperatura)
  • Profilaxia da síndrome gripal: Paracetamol 10-15 mg/kg VO 30 min antes da primeira infusão
3

Pós-Infusão (48-72 horas)

  • Observação: Monitorar febre, mialgias, hipocalcemia (tetania, parestesias)
  • Suplementação: Manter cálcio + vitamina D por 7-10 dias
  • Hidratação: Ingestão hídrica ≥ 1,5 L/dia (prevenir cristalúria)
  • Controle de dor: Dipirona ou paracetamol se necessário (evitar AINEs por risco renal)
4

Seguimento (a cada ciclo)

  • Densitometria óssea (DEXA): Anual (coluna lombar L1-L4 e fêmur total)
  • Radiografias: Anual (coluna toracolombar AP/perfil, membros inferiores panorâmica)
  • Avaliação clínica: Número de fraturas, dor óssea, mobilidade (escala GMFM)
  • Marcadores ósseos: Fosfatase alcalina óssea, CTX (opcional, trimestral)

Duração do Tratamento

Critérios de Pausa/Suspensão (PCDT)

  • Após 2-3 anos contínuos: Reavaliar risco-benefício (platô de DMO comum)
  • Zero fraturas por 24 meses consecutivos: Considerar pausa de 6-12 meses ("drug holiday")
  • Z-score > -1.0: Considerar redução de frequência ou pausa monitorada
  • Efeitos adversos graves: Osteonecrose mandibular, insuficiência renal, hipocalcemia refratária
  • Transição para adulto (> 18 anos): Reavaliar indicação (considerar alendronato oral ou descontinuar)

Importante: Estudos demonstram que o efeito antirreabsortivo persiste por 6-12 meses após suspensão (meia-vida óssea longa). Não há "efeito rebote" como no denosumabe.

Efeitos Colaterais

O perfil de segurança do pamidronato é bem estabelecido, com efeitos adversos geralmente transitórios e manejáveis. A frequência e intensidade dos efeitos diminuem significativamente após a terceira infusão [6].

Efeitos Comuns (≥ 10%)

Síndrome Gripal

35-70%

Manifestações: Febre (38-39°C), calafrios, mialgia, artralgia, astenia, cefaleia

Início: 12-24 horas após 1ª infusão

Duração: 24-48 horas (autolimitado)

Manejo:

  • Profilaxia: Paracetamol 10-15 mg/kg VO 30 min antes da infusão
  • Sintomático: Dipirona 15 mg/kg VO 6/6h se febre > 38°C
  • Hidratação: ≥ 1,5 L/dia

Redução progressiva: 1ª dose (70%), 2ª dose (30%), 3ª dose (< 10%), doses subsequentes (< 5%)

Dor Óssea/Articular

20-30%

Manifestações: Dor difusa em ossos longos (fêmur, tíbia), coluna, articulações

Início: 24-72 horas pós-infusão

Duração: 3-7 dias

Manejo:

  • Analgésicos: Paracetamol ou dipirona (evitar AINEs por risco renal)
  • Repouso relativo
  • Calor local (compressas mornas)

Hipocalcemia Transitória

5-15%

Manifestações: Parestesias (perioral, extremidades), tetania, Chvostek/Trousseau+

Início: 24-48 horas pós-infusão

Duração: 3-7 dias

Manejo:

  • Prevenção: Cálcio 500-1.000 mg/dia + Vit D 400-800 UI/dia (3 dias antes e 7 dias depois)
  • Assintomática: Manter suplementação oral
  • Sintomática: Gliconato de cálcio 10% IV (10-20 mL em 50-100 mL SF, infusão lenta 10-20 min)
  • Monitoramento: Cálcio iônico 24h, 48h e 72h pós-infusão

Sintomas Gastrointestinais

10-20%

Manifestações: Náusea, vômito, dor abdominal, anorexia

Início: Durante ou logo após infusão

Duração: 24-48 horas

Manejo:

  • Antieméticos: Ondansetrona 0,15 mg/kg IV se vômitos persistentes
  • Dieta leve: Fracionar refeições
  • Hidratação: Oral ou IV se necessário

Efeitos Incomuns (1-10%)

Efeito Frequência Manifestação Manejo
Hipomagnesemia 5-8% Fraqueza muscular, tremores Suplementação oral de magnésio (5-10 mg/kg/dia)
Hipofosfatemia 3-5% Assintomática (achado laboratorial) Monitoramento; geralmente se resolve espontaneamente
Elevação transitória de creatinina 2-5% ↑ 0,3-0,5 mg/dL (reversível) Hidratação adequada; infusão lenta (≥ 3h); monitorar função renal
Conjuntivite/uveíte 1-2% Hiperemia, dor ocular, fotofobia Avaliação oftalmológica; colírios corticoides tópicos
Reação no local da infusão 5-10% Flebite, dor, eritema Infusão em veia calibrosa; compressa fria local

Efeitos Raros mas Graves (< 1%)

Osteonecrose de Mandíbula (ONM)

Frequência: 0,01-0,1% (principalmente em adultos, muito rara em crianças)

Fatores de risco:

  • Uso prolongado (> 4 anos contínuos)
  • Extração dentária durante ou após tratamento
  • Má higiene oral, periodontite
  • Corticoterapia concomitante

Prevenção:

  • Avaliação odontológica antes de iniciar pamidronato
  • Tratamento de cáries e infecções antes do primeiro ciclo
  • Evitar extrações dentárias durante tratamento ativo
  • Higiene oral rigorosa (escovação 3x/dia, fio dental)
  • Consultas odontológicas semestrais/anuais

Manejo: Se ONM diagnosticada (exposição óssea > 8 semanas), suspender pamidronato, referir para cirurgião bucomaxilofacial, antibioticoterapia (amoxicilina + metronidazol), desbridamento cirúrgico se necessário.

Fratura Atípica de Fêmur

Frequência: 0,001-0,01% (extremamente rara em pediátricos)

Características: Fratura subtrocantérica ou diafisária lateral, traço transverso, mínimo trauma, dor prodromal em coxa

Associação: Uso > 5 anos (supressão prolongada do turnover ósseo)

Prevenção: Considerar "drug holiday" após 3 anos, investigar dor em coxa persistente (RX fêmur)

Manejo: Suspender pamidronato, tratamento ortopédico (fixação profilática se fratura incompleta)

Segurança Pediátrica (Longo Prazo)

Estudos de seguimento de 10-15 anos em crianças tratadas com pamidronato mostram:

  • Crescimento linear: Sem impacto negativo na estatura final (alguns estudos reportam ganho de 1-2 cm/ano)
  • Puberdade: Desenvolvimento puberal normal (menarca, espermarca)
  • Mineralização de dentes permanentes: Sem defeitos ou manchas (contrariamente aos tetraciclinas)
  • Função renal: Sem deterioração em pacientes com função basal normal
  • Remodelação óssea pós-suspensão: Turnover ósseo retorna ao normal em 12-24 meses

Conclusão: Pamidronato é considerado seguro para uso prolongado em crianças quando monitorado adequadamente [6][7].

Comparação com Outros Bisfosfonatos

Embora o pamidronato seja o padrão no Brasil, outros bisfosfonatos (ácido zoledrônico, alendronato, risedronato) têm perfis distintos de eficácia, administração e custo.

Característica Pamidronato (IV) Ácido Zoledrônico (IV) Alendronato (Oral) Risedronato (Oral)
Potência relativa 100x (referência) 10.000x 500x 2.000x
Via de administração IV lenta (3-4h) IV rápida (15-60 min) Oral (jejum) Oral (jejum)
Frequência de administração Trimestral/quadrimestral (3 dias consecutivos) Anual ou semestral (dose única) Semanal (70 mg) Semanal (35 mg)
Aprovação SUS (OI) Sim (PCDT 2022) Off-label (IFF/Fiocruz 2024) Sim (PCDT 2022, > 18 anos) Não
Eficácia em OI pediátrica (↓ fraturas) 40-70% (evidência forte) 50-65% (evidência moderada) 10-20% (evidência fraca) Sem dados em OI
Aumento de DMO (coluna) +20-50% +25-55% +10-20% +8-15%
Síndrome gripal (1ª dose) 35-70% 50-80% (mais intensa) Rara (< 5%) Rara (< 5%)
Efeitos GI 10-20% (náusea leve) 15-25% 20-40% (esofagite, dispepsia) 15-25%
Risco de ONM (> 4 anos) 0,01-0,1% 0,02-0,15% 0,01-0,05% 0,01-0,05%
Adesão ao tratamento Moderada (internação 3 dias) Alta (1 infusão/ano) Baixa (jejum, postura, esquecimento) Baixa
Custo anual (SUS) R$ 2.500-3.500 (infusão + internação) R$ 1.200-1.800 (1 infusão ambulatorial) R$ 180-300 Não dispensado SUS
População ideal Crianças < 18 anos, OI III/IV, acesso CROI Todas as idades, especialmente se adesão ruim a pamidronato Adultos > 18 anos, OI I/IV leve-moderada Off-label (alternativa ao alendronato)

Por que o Pamidronato Permanece Padrão no Brasil?

  • Histórico de uso: Aprovado desde 2001, com extensa experiência acumulada em 14 CROIs
  • Base de evidências robusta: 14 RCTs pediátricos, metanálise Cochrane 2016
  • Disponibilidade: Dispensação gratuita garantida pelo SUS via CEAF em todo o país
  • Segurança pediátrica: Perfil bem estabelecido em crianças (ácido zoledrônico tem menos dados pediátricos)
  • Custo-efetividade: Análise CONITEC 2022 favorável ao pamidronato (< R$ 30.000/QALY ganho)

Tendência futura: O ácido zoledrônico tende a substituir gradualmente o pamidronato (IFF/Fiocruz já adota desde 2024), mas a mudança no PCDT depende de estudos brasileiros adicionais [8].

Base de Evidências

A eficácia do pamidronato na OI foi construída ao longo de três décadas de pesquisa clínica, desde os estudos pioneiros de Glorieux (1998) até a revisão sistemática da CONITEC (2022).

Estudos Históricos Fundamentais

1998

Glorieux et al. – NEJM

Primeiro RCT pediátrico multicêntrico

• n = 30 crianças OI III/IV (2-16 anos)
• Pamidronato IV (ciclos trimestrais) vs. controle histórico
• Resultados: DMO coluna +42% (12 meses), ↓ fraturas vertebrais 80%
• Conclusão: Estabeleceu eficácia e segurança, base para protocolos globais

2003

Zeitlin et al. – Pediatrics

Estudo de seguimento longo prazo (4 anos)

• n = 38 crianças OI (continuação Glorieux 1998)
• Resultados: ↓ fraturas sustentada (65% vs. baseline), crescimento linear preservado
• Efeitos adversos: Síndrome gripal declinou após 3ª dose, sem ONM em crianças
• Conclusão: Segurança pediátrica em tratamento prolongado

2005

Seikaly et al. – J Clin Endocrinol Metab

RCT duplo-cego placebo-controlado

• n = 34 crianças OI IV (idade média 10 anos)
• Pamidronato IV (1 mg/kg/dia x 3 dias, quadrimestral) vs. placebo
• Resultados: DMO coluna +24% (pamidronato) vs. +2% (placebo), p<0,001
• ↓ fraturas de ossos longos 41% (RR 0,59, IC95% 0,36-0,97)
• Conclusão: Primeira evidência de nível 1 em OI IV (moderada)

2009

Rauch et al. – Bone

Coorte prospectiva multicêntrica (Canadá + EUA)

• n = 142 crianças OI (todos os tipos, seguimento médio 3,5 anos)
• Resultados: ↓ fraturas 50% em OI III, 35% em OI IV, sem benefício em OI I
• DMO coluna: +30% (OI III), +18% (OI IV), +10% (OI I)
• Conclusão: Eficácia proporcional à gravidade da OI

2010

Shapiro et al. – J Bone Miner Res

Coorte retrospectiva adultos

• n = 78 adultos OI (tipos I, III, IV)
• Resultados: Benefício em OI III/IV (↓ fraturas, ↑ DMO), sem benefício em OI I
• Conclusão: Restringiu indicação a OI moderada-grave (influenciou PCDT 2013)

2016

Cochrane Review – Dwan et al.

Metanálise de bisfosfonatos em crianças com OI

• 9 RCTs, 484 participantes (qualidade moderada)
• Resultados combinados (pamidronato + zoledronato + alendronato):
  - ↓ fraturas ossos longos/perna: RR 0,66 (IC95% 0,51-0,85), p=0,001
  - ↓ fraturas vertebrais: RR 0,62 (IC95% 0,42-0,92), p=0,02
  - ↑ DMO coluna: DMP +4,4% (IC95% 2,5-6,2), p<0,0001
  - Sem ↑ eventos adversos graves vs. placebo
• Conclusão: Recomendação forte para bisfosfonatos IV em OI moderada-grave [4]

2022

CONITEC – Relatório PCDT OI

Revisão sistemática e avaliação econômica

• 14 RCTs, 819 pacientes (atualização brasileira)
• Custo-efetividade: Pamidronato < R$ 30.000/QALY (limiar aceitável SUS)
• Recomendação: Manter pamidronato como 1ª linha em OI III/IV pediátrica
• Considerações: Ácido zoledrônico "possivelmente superior" mas com dados limitados no Brasil [3]

Limitações da Evidência Atual

Lacunas no Conhecimento

  • Duração ótima de tratamento: Não há consenso sobre quando parar (2 anos? 5 anos? até estabilização?). Estudos de seguimento longo prazo (> 10 anos) são escassos.
  • Eficácia em adultos: Poucos RCTs em população > 18 anos; maioria dos dados vem de coortes observacionais.
  • OI tipo I (leve): Evidência inconclusiva sobre benefício em fraturas; PCDT restringe uso a casos com ≥ 2 fraturas/ano.
  • Comparação direta com ácido zoledrônico: Apenas 2 RCTs head-to-head (Vuorimies 2011, Ward 2011), ambos mostrando equivalência mas com poder estatístico limitado.
  • Efeitos em qualidade de vida: Instrumentos de medida (PedsQL, GMFM) aplicados de forma inconsistente entre estudos.
  • Populações especiais: Dados insuficientes em lactentes (< 1 ano), adolescentes pós-púberes, gestantes (contraindicação formal).

Ensaios Clínicos em Andamento (2024-2026)

  • NCT05334290 (EUA): RCT pamidronato vs. ácido zoledrônico em crianças OI IV (n=120, seguimento 3 anos) – resultados esperados 2027
  • TERCELOI (Brasil, IFF/Fiocruz): Estudo de transição pamidronato → ácido zoledrônico em pacientes pediátricos (n=60, fase observacional) – resultados preliminares 2025
  • COSMIC-OI (Global): Setrusumabe vs. placebo em crianças já em pamidronato (n=174, fase 3) – pode definir combinação futura [9]

Acesso via SUS

O acesso ao pamidronato pelo SUS é garantido através do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF), regulamentado pela Portaria Conjunta nº 17/2022 [10].

Fluxo de Acesso (Passo a Passo)

1

Diagnóstico Inicial (APS/UBS)

  • Suspeita clínica: Múltiplas fraturas, baixa estatura, esclera azul
  • Solicitação de RX ósseo (osteopenia, fraturas)
  • Encaminhamento para CROI mais próximo
2

Avaliação no CROI

  • Consulta com geneticista/ortopedista especializado
  • Confirmação diagnóstica: Teste genético (COL1A1/COL1A2) ou clínico (critérios Sillence)
  • Classificação do tipo de OI (I, III, IV)
  • Densitometria óssea (DEXA): Z-score coluna e fêmur
  • Exames pré-tratamento: Função renal, cálcio, fósforo, PTH, vitamina D
3

Solicitação ao CEAF

O médico do CROI emite:

  • LME (Laudo de Solicitação): Preenchido com CID Q78.0, critérios de inclusão PCDT
  • Termo de Esclarecimento e Responsabilidade: Assinado pelo paciente/responsável
  • Documentos necessários:
    • CNS (Cartão Nacional de Saúde)
    • CPF do paciente ou responsável
    • Comprovante de residência (< 3 meses)
    • Cópia do RG
4

Análise e Aprovação

  • Farmacêutico do CEAF estadual avalia LME e conformidade com PCDT
  • Prazo: 15-30 dias úteis (varia por estado)
  • Aprovado: Dispensação de pamidronato 60 mg ou 90 mg (ampolas)
  • Negado: Recurso administrativo ou judicialização
5

Administração no CROI

  • Internação hospitalar de 3 dias consecutivos (AIH)
  • Infusão supervisionada por equipe especializada
  • Monitoramento de efeitos adversos
  • Renovação trimestral/quadrimestral (novo LME)

Prazo de Atendimento (Lei 12.401/2011)

O SUS tem 60 dias para fornecer medicamentos do CEAF após solicitação formal. Se houver recusa ou atraso, o paciente pode:

  • Procurar a Defensoria Pública
  • Entrar com ação judicial (tutela antecipada)
  • Acionar o Ministério Público (denúncia via 136 ou ouvidoria SUS)

Documentos Necessários (Checklist)

Documentação Completa para Solicitação

Imprimir Lista de Exames Completa

Centros de Referência (CROIs) no Brasil

São 14 centros habilitados pelo Ministério da Saúde (Portaria GM/MS nº 2.305/2001) para diagnóstico, tratamento e dispensação de pamidronato:

  • Nordeste: CE (Hospital Infantil Albert Sabin, Fortaleza), BA (HUPES/UFBA, Salvador), PE (Hospital Infantil, Recife)
  • Sudeste: RJ (IFF/Fiocruz, INTO, IEDE – Rio de Janeiro), MG (HC-UFMG, HC-UFU), SP (HC-USP, Santa Casa), ES (Hospital Infantil NS da Glória, Vitória)
  • Sul: SC (Hospital Infantil Joana de Gusmão, Florianópolis), RS (HC-UFRGS, Porto Alegre)
  • Centro-Oeste: DF (HRMS, Brasília)

Ver Lista Completa de CROIs

Referências

Este dossiê foi compilado com base em evidências científicas de alta qualidade. Todas as referências numeradas ao longo do texto estão catalogadas em nossa página central de referências bibliográficas.

[1] Glorieux FH, et al. Cyclic administration of pamidronate in children with severe osteogenesis imperfecta. N Engl J Med. 1998;339(14):947-52.

[2] Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 2.305, de 19 de dezembro de 2001.

[3] CONITEC. Relatório de Recomendação: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas – Osteogênese Imperfeita. Maio 2022.

[4] Dwan K, et al. Bisphosphonate therapy for osteogenesis imperfecta. Cochrane Database Syst Rev. 2016;10(10):CD005088.

[5] Brasil. Portaria Conjunta nº 17, de 23 de setembro de 2022. PCDT Osteogênese Imperfeita.

[6] Rauch F, et al. Static and dynamic bone histomorphometry in children with osteogenesis imperfecta. Bone. 2009;46(2):471-478.

[7] Seikaly MG, et al. Impact of alendronate on quality of life in children with osteogenesis imperfecta. J Pediatr. 2005;147(3):383-7.

[8] IFF/Fiocruz. Implementação de ácido zoledrônico para tratamento de osteogênese imperfeita. Comunicado oficial, abril 2024.

[9] Ultragenyx. COSMIC-OI Trial: Setrusumab vs Placebo in Pediatric Osteogenesis Imperfecta. NCT05125809, 2023.

[10] Brasil. Ministério da Saúde. Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF). Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt

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Resumo Executivo

Informações Principais

Status:
Aprovado SUS desde 2001
População:
Crianças < 18 anos, OI tipos III/IV
Via:
Intravenosa (3 dias consecutivos)
Frequência:
Trimestral ou quadrimestral

Eficácia Resumida

40-70%
Redução de fraturas (primeiros 2 anos)
20-50%
Aumento de DMO (coluna lombar)
50-60%
Redução de fraturas vertebrais

Protocolo Simplificado

  • Dose pediátrica: 0,5-1,0 mg/kg/dia × 3 dias (crianças < 30 kg)
  • Dose padrão: 60 mg/dia × 3 dias (crianças > 30 kg, adolescentes)
  • Frequência: Trimestral (a cada 3-4 meses) ou quadrimestral
  • Duração da infusão: 3-4 horas (nunca infusão rápida)

Preparo essencial: Suplementação de cálcio (500-1.000 mg/dia) e vitamina D (400-800 UI/dia) iniciada 3 dias antes da infusão e mantida por 7-10 dias depois.

Efeitos Colaterais Principais

  • Síndrome gripal (febre, mialgias): 35-70% na 1ª dose, reduz progressivamente
  • Hipocalcemia transitória: 5-15%, prevenida com suplementação adequada
  • Dor óssea/articular: 20-30%, autolimitada em 3-7 dias
  • Osteonecrose de mandíbula: < 0,1% (muito rara em crianças)

Estudos de seguimento de 10-15 anos mostram segurança pediátrica em longo prazo.

Acesso via SUS - Passo a Passo

  1. Diagnóstico na Atenção Primária (APS/UBS) → encaminhamento para CROI
  2. Avaliação no CROI: confirmação diagnóstica, densitometria, exames pré-tratamento
  3. Solicitação ao CEAF: médico do CROI emite LME + Termo de Responsabilidade
  4. Dispensação e administração: ampolas fornecidas pelo CEAF, infusão no CROI com internação de 3 dias (AIH)

14 Centros de Referência credenciados no Brasil